Educação popular, intersubjetividade e espiritualidade: uma relação de memória sobre as contribuições do conceito de comunicação na obra pedagógica de Paulo Freire

Popular Education, Inter-Subjectivity and Spirituality: An Account of the Contributions of the Concept of Communication to the Pedagogical Work of Paulo Freire

Educación popular, intersubjetividad y espiritualidad: una relación de memoria sobre los aportes del concepto de comunicación a la obra pedagógica de Paulo Freire

  • Luis Fernando Rodríguez B. Universidad Javeriana
Publicado
2018-12-24

La importancia pedagógica e histórica de Paulo Freire es fundamental para pensar la construcción de la memoria colectiva, procesos de reconocimiento social y representación política en América Latina. Su pensamiento y obra no solo están relacionados, específicamente, con el campo educativo, también diversas áreas de las llamadas ciencias sociales, entre ellas la comunicación, están altamente influenciadas desde su visión esclarecedora, crítica y cultural. Aquí surge la importancia de comprender la importancia transversal de las categorías sociales que confluyen en torno a elementos tales como el diálogo, la mediación, lo popular, la libertad, el amor y la esperanza. Entre muchos de sus aportes está pensar y asumir la comunicación como una forma crítica de desenajenación de los sujetos y emancipación del pueblo de aquellas estructuras, tanto epistémicas como políticas que lo manipulan e impiden su propia producción de conocimiento y autonomía. A cincuenta años de la publicación de la Pedagogía del oprimido, este texto presenta un breve recuerdo del significado de la comunicación desde su obra y memoria.

Palabras clave: communication, spirituality, pedagogy, mediation, dialogue (en)
Palabras clave: comunicación, espiritualidad, pedagogía, mediación, diálogo (es)
Palabras clave: comunicação, espiritualidade, pedagogia, mediação, diálogo (pt)
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Luis Fernando Rodríguez B., Universidad Javeriana

Comunicador social e mestrando em Estudos afrocolombianos. Universidad Javeriana,
Cartagena de Indias, Colômbia.

Rodríguez B., L. F. (2018). Educación popular, intersubjetividad y espiritualidad: una relación de memoria sobre los aportes del concepto de comunicación a la obra pedagógica de Paulo Freire. (pensamiento), (palabra). Y Obra, (21), 142-151. https://doi.org/10.17227/ppo.num21-9473

Berger, P. L., e Luckmann, T. (2012). Modernidade, pluralismo e crise de sentido: a orientação do homem moderno. (3. ed.). Petrópolis: Vozes. 

Foucault, M. (1991). El sujeto y el poder. Bogotá: Carpe Diem. 

Freire, P. (1975). Extensão ou comunicação. (2° ed.). Rio de Janeiro: Paz e Terra. 

Freire, P. (1978). Educação como prática da liberdade. (8° ed.). Rio de Janeiro: Paz e Terra. 

Freire, P. (1986). Pedagogia do oprimido. (16. ed.). Rio de Janeiro: Paz e Terra. 

Freire, P. (2001). Educação e mudança. (24. ed.). São Paulo: Paz e Terra. 

Freire, P. (2009). Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. (40. reimp.). São Paulo: Paz e Terra. 

Manfredi, S. M. A. (1985). Educação popular no Brasil: uma releitura a partir de Antonio Gramsci. Em Brandão, C. R. (Org.). A questão política da educação popular. São Paulo: Brasiliense. 

Recibido: de julio de 2018; Aceptado: de septiembre de 2018

Resumo

A importância pedagógica e histórica de Paulo Freire é fundamental para pensar a construção da memória coletiva, processos de reconhecimento social e representação política em América Latina. Seu pensamento e obra, não só têm a ver com o campo educativo especificamente, também diversas áreas das chamadas ciências sociais, entre elas a comunicação, recebem uma grande influência desde sua visão esclarecedora, crítica e cultural. Daí torna-se importante compreender a importância transversal de categorias sociais, que confluem em torno de elementos tais como o diálogo, a mediação, o popular, a libertade, o amor e a esperança. Entre muitas contribuições de sua inspiração está pensar e assumir a comunicação como uma forma crítica de desalienação dos sujeitos e emancipação do povo daquelas estruturas, tanto epistémicas como políticas que o manipulam e impedem sua própria produção de conhecimento e autonomia. A cinquenta anos da publicação da Pedagogia do oprimido, este texto apresenta uma pequena lembrança do significado crítico da comunicação desde sua obra e memória.

Palavras-chave:

comunicação, espiritualidade, pedagogia, mediação, diálogo.

Resumen

La importancia pedagógica e histórica de Paulo Freire es fundamental para pensar la construcción de la memoria colectiva, procesos de reconocimiento social y representación política en América Latina. Su pensamiento y obra no solo están relacionados, específicamente, con el campo educativo, también diversas áreas de las llamadas ciencias sociales, entre ellas la comunicación, están altamente influenciadas desde su visión esclarecedora, crítica y cultural. Aquí surge la importancia de comprender la importancia transversal de las categorías sociales que confluyen en torno a elementos tales como el diálogo, la mediación, lo popular, la libertad, el amor y la esperanza. Entre muchos de sus aportes está pensar y asumir la comunicación como una forma crítica de desenajenación de los sujetos y emancipación del pueblo de aquellas estructuras, tanto epistémicas como políticas que lo manipulan e impiden su propia producción de conocimiento y autonomía. A cincuenta años de la publicación de la Pedagogía del oprimido, este texto presenta un breve recuerdo del significado de la comunicación desde su obra y memoria.

Palabras clave:

comunicación, espiritualidad, pedagogía, mediación, diálogo.

Abstract

The pedagogic and historical importance of Paulo Freire is essential to think about the construction of collective memory, processes of social recognition, and political representation in Latin America. His thinking and work are not only specifically related to the field of education, but the so-called social sciences, including communication, are also highly influenced by their enlightening, critical and cultural vision. This leads to the importance of understanding the transversal significance of the social categories converging around elements such as dialogue, mediation, the popular, freedom, love, and hope. His many contributions include thinking and assuming communication as a critical form of disengagement of individuals and the people's emancipation from those structures-both epistemic and political-that manipulate them and prevent their own production of knowledge and autonomy. Fifty years after the publication of the Pedagogy of the Oppressed, this text provides a brief reminder of the meaning of communication from his work and memory.

Keywords:

communication, spirituality, pedagogy, mediation, dialogue.

Introdução

A hegemonia de relatos midiáticos e academicistas, assim como a centralidade de vozes hierárquicas dentro das estruturas e relações de poder na cultura ocidental e relatos de modernidade, deixam para fora muitas vezes a voz e a presença de culturas populares que também ficam envolvidas em processos de luta social, cultural e pedagógica. Isso é um sinal claro de crise de sentido, identidade e representação, presente no discurso moderno das ciências sociais. As crises de sentido, segundo Berger e Luckmann (2012) em Modernidade, pluralismo e crise de sentido: a orientação do homem moderno, têm origem no desalinhamento entre os sentidos intersubjetivos. Daí que outorgar visibilidade e reconhecer a presença histórica de perspectivas críticas de comunicação nas abordagens pedagógicas de Paulo Freire, no meio destes parâmetros de modernidade desencantada, pensamento único e homogeneização cultural, seja um verdadeiro desafio para estados de representação social mais comprometidos com as identidades oprimidas e vozes coletivas envolvidas naquelas experiências do esquecimento. Diz Freire (1978) em Educação como prática da liberdade: "precisávamos de uma Pedagogia de Comunicação, com que vencêssemos o desamor acrítico do antidiálogo" (p. 108).

A comunicação midiática faz parte da trama cotidiana dos discursos e ações políticas de desenvolvimento social e, portanto, cada vez mais se constitui como aparelhos e referentes de construção da realidade e formas de vida pública. Daí o papel mediador preponderante que possui a comunicação entre os cidadãos, o estado, as instituições e as comunidades que são afetados com seu poder de manipulação e modelação. Ditos parâmetros de análise permitem-nos estabelecer a seguinte questão: como atuam os meios de comunicação de massas e como essas ações de produção hegemônica determinam representações de sujeitos passivos e indiferentes com seus outros, comunidades acrí-ticas e espiritualmente indolentes, sistemas educativos sem relação prática e dialógica com o mundo da vida?

Nós termos de Freire (1978, p. 106):

O que teríamos de fazer, uma sociedade em transição como a nossa, inserida no processo de democratização fundamental, com o povo em grande parte emergindo, era tentar uma educação que fosse capaz de colaborar com ele na indispensável organização de seu pensamento. Educação que lhe pusesse a disposição meios com os quais fosse capaz de superar a captação mágica ou ingênua de sua realidade, por uma dominantemente crítica.

Daqui decorre a necessidade de possibilitar que as pessoas façam uso das suas linguagens e ferramentas para o exercício do direito de representação, o que significa um exercício constante de pesquisa, práxis e produção crítica de meios a partir dos próprios sujeitos. Principalmente, daqueles cujas "vozes afastadas" são um desafio histórico e constante para as experiências alternativas de comunicação e pedagogia crítica na América Latina.

A comunicação, uma questão de sentido profundo

Analisar e ressignificar a categoria de comunicação, desde o pensamento pedagógico de Freire, como vetor crítico na relação educação-espiritualidade, mais do que uma necessidade instrumental, é uma poderosa estratégia de transformação de consciências, construção de imaginários em re-existência, interação simbólica e produção de sentido humano. "Ama-se na medida em que se busca comunicação, integração a partir da comunicação com os demais" (Freire, 2001, p. 29).

A comunicação, como sabemos, é uma dimensão temática e transversal da vida humana que perpassa as dimensões básicas (físicas, sensoriais, emocionais, mentais e espirituais) dos seres vivos. Portanto, podemos dizer que sua capacidade de interagir e produzir sentido humano, social e amoroso é altamente afim com o campo da espiritualidade comprometido em levar em consideração a integridade do ser humano. Além disso, promover a criação de espaços de reflexão interdisciplinar e leitura crítica de meios, para problematizar a realidade e visualizar assim memórias excluídas, é um compromisso ético e ideológico de grande relevância e pertinência social na pesquisa do campo pedagógico na região latino-americana.

Há os que pensam, às vezes, com boa intenção, mas equivocamente, "que sendo demorado o processo dialógico, -o que não é verdade-se deve fazer a revolução sem comunicação, através dos "comunicados" e, depois de feita, então, se desenvolverá um amplo esforço educativo. Mesmo porque, continuam, não é possível fazer educação antes da chegada ao poder. Educação libertadora. (Freire, 1986, p. 158).

Sendo a comunicação crítica uma instância de mediação social que contribui para fortalecer relações educativas e situações dialógicas entre sujeitos e romper cadeias de alienação e opaci-zação da realidade opressora, propõe-se a leitura e apropriação de meios como elemento fundamental nos processos de apropriação cultural, identidade e construção de memória histórica de nossos povos, admitindo que:

Na linha do emprego destes recursos, parece-nos indispensável a análise do conteúdo dos editoriais da imprensa, a propósito de um mesmo acontecimento. Por que razão os jornais se manifestam de forma diferente sobre um mesmo fato? Que o povo desenvolva o seu espírito crítico para que, ao ler jornais ou ao ouvir o noticiário das emissoras de rádio, o faça não como mero paciente, como objeto dos "comunicados" que lhes prescrevem, mas como uma consciência que precisa libertar-se. (Freire, 1986, p.139).

Em outros termos, o processo de libertação em comunhão, ou seja, o reconhecimento do estatuto de opressão/alienação à qual têm sido submetidas as comunidades, não se separa do gesto de cuidado com o mundo que assume responsabilidade com os outros e a luta contra a lógica de reprodução, dominação e manipulação bancária, "fixista", que esmaga e reduz o homem à condição de objeto ou recipiente vazio que mora em silenciosa resignação mítica ao interior de uma realidade adaptativa. Daí a necessidade de um olhar contra hegemônico gramsciano:

No nosso entender, a perspectiva apreendida em Gramsci parece indicar uma linha de reflexão e de análise que centraria sua atenção na educação popular enquanto processo, que permitiria às classes subalternas elaborar e divulgar uma concepção de mundo organicamente vinculada aos seus interesses e não, simplesmente, como um instrumento ideológico empregado pelas classes dominantes para a conquista ou manutenção de sua hegemonia. (Manfredi, 1985, p. 40).

Assim, a necessidade de humanização é inapelável. Portanto, explorar mediações de sentido, relações dialógicas e ações de afetação humana é assunto de uma história engajada com a capacidade ontológica dos sujeitos em ser sempre mais.

Se é dizendo a palavra com que, "pronunciando" o mundo, os homens o transformam, o diálogo se impõe como caminho pelo qual os homens ganham significação enquanto homens. Por isto, o diálogo é uma exigência existencial. E, se ele é o encontro em que se solidariza o refletir e o agir de seus sujeitos endereçados ao mundo a ser transformado e humanizado, não pode reduzir-se a um ato de depositar ideias de um sujeito no outro, nem tampouco tornar-se simples troca de ideias a serem consumidas pelos permutantes. (Freire, 1986, p. 93).

A prática de comunicação precisa de intervenção, imaginação e coerência ética-estética que favoreça a formação de um novo ethos e novas representações de educação não formal e popular. "Nesta teoria da ação, exatamente porque é revolucionária, não é possível nem em ator, no singular, nem apenas em atores, no plural, mas em atores em intersubjetividade, em intercomunicação" (Freire, 1986, p. 150). Práxis é a intervenção expressada através de uma disposição dialógica entre reflexão-ação e teoria-prática, movimento engajado com a transformação dos sujeitos oprimidos e sua própria condição histórica de ser mais, ser reconhecido através de sua palavra autêntica e experiência comunitária, o que significa perceber que:

Este diálogo, como exigência radical da revolução, responde a outra exigência radical -a dos homens como seres que não podem ser fora da comunicação pois que são comunicação. Obstaculizar a comunicação é transformá-los em quase "coisa" e isto é tarefa e objetivo dos opressores, não dos revolucionários. (Freire, 1986, p.149).

Assim, a articulação dialógica entre comunicação, educação e espiritualidade revela uma apertura significativa para a apropriação crítica da realidade e transformação social das comunidades em processos de libertação e humanização. Uma janela de comunhão e sentido onde podem-se recolocar os componentes dialógicos da educação problematizadora, engajada sempre com a pronúncia de um novo sujeito histórico, social e cultural, cognoscente sempre, que tenta sair das múltiplas dependências ideológicas e epistémicas, assim como das contradições afins às lógicas verticais de educação e formação política adaptativa.

A comunicação, pelo contrário, implica numa reciprocidade que não pode ser rompida. Por isto, não é possível compreender o pensamento fora de sua dupla função: cognoscitiva e comunicativa. Esta função, por sua vez, não é a extensão do conteúdo significante do significado, objeto do pensar e do conhecer. (Freire, 1975, p. 67).

Lembre-se que a comunicação é comunhão, participação e intersubjetividade, polifonia de vozes, interligação e reciprocidade; ela pode romper com processos educativos centrados na transmissão mecânica de dados e conhecimentos isolados e sem contexto. É prática de amor e coragem, prática para a liberdade e a esperança, humanização de homens em movimento e educação criadora.

Comunicar é comunicar-se em torno do significante. Desta forma, na comunicação, não há sujeitos passivos. Os sujeitos co-intencionados ao objeto de seu pensar se comunicam seu conteúdo. O que caracteriza a comunicação enquanto este comunicar comunicando-se, é que ela é diálogo, assim como o diálogo é comunicativo. (Freire, 1975, p. 67).

Uma leitura dialógica da comunicação

Já agora ninguém educa ninguém,

como tampouco ninguém se educa a

si mesmo: os homens se educam em

comunhão, mediatizados pelo mundo.

(FREIRE, 1986, p. 79).

A criação de um mundo duradouro - aquele espaço de suporte existencial dos sujeitos - é uma tarefa interdisciplinar, tanto de esferas humanas transcendentes e relações de produção interdependentes, como de ações ético-simbólicas, portadoras de imagens de representação, dignidade e humanismo, e não legitimar um mundo obsoleto, efêmero e descartável.

A carga simbólica dos suportes da vida e a existência incita a lutar por um destino onde seja possível intervir com responsabilidade através de práticas formadoras e relações inter-humanas autênticas para um bem viver coletivo não ingênuo.

A invenção da existência envolve, repita-se, necessariamente, a linguagem, a cultura, a comunicação em níveis mais profundos e complexos que ocorria e ocorre no domínio da vida, a 'espiritualização' do mundo, a possibilidade de embelezar como de enfear o mundo e tudo isso inscreveria mulheres e homens como seres éticos. (Freire, 2009, p. 51).

Propor, então, a leitura dialógica da comunicação como prática articuladora de experiência de vida e formação humana é dinamizar, ante todo, uma vital tradição, histórica e filosófica corajosa, que entre muitos destaques vai contribuir para, segundo Michel Foucault (1991) na obra O sujeito e o poder, "a busca da história dos modos pelos quais os seres se constituem como sujeitos" (p. 51).

Não é possível pensar os seres humanos longe, sequer, da ética, quanto mais fora dela. Estar longe, ou pior, fora da ética, entre nós, mulheres e homens, é uma transgressão. É por isso que transformar a experiência educativa em puro treinamento técnico é ames-quinhar o que há de fundamentalmente humano no exercício educativo: o seu caráter formador. (Freire, 2009, p. 33).

Cada dimensão transversal da vida humana, a ética, a estética, a comunicação, promove um deslocamento espiritual, audaz e epistemológico, frente aquelas estruturas rígidas e convencionais, mediante as quais os sujeitos adquirem novos sentidos como produtores de conhecimento e conscientização. Este confronto histórico começa através de um processo dialético e de resistência, horizontal e político, de aprendizagem e apropriação da sua própria realidade e necessidades vivenciais. Deixar de ser manipulado, coisificado, e sem palavra verdadeira que não lhe permite a pronúncia do seu próprio mundo.

Consequentemente, podemos dizer com Freire:

A educação que se impõe aos que verdadeiramente se comprometem com a libertação não pode fundar-se numa compreensão dos homens como seres “vazios” a quem o mundo “encha” de conteúdos; não pode basear-se numa consciência espacializada, mecanicistamente compartimentada, mas nos homens como “corpos conscientes” e na consciência como consciência intencionada ao mundo. Não pode ser a do depósito de conteúdos, mas a da problematização dos homens em suas relações com o mundo. (1986, p. 77).

Cada uma destas relações críticas e libertárias, políticas e pedagógicas, reivindicam a confiança, a identidade e a intuição própria dos indivíduos para criar novas formas de ser, sentir e morar em um território simbólico e político de realidades possíveis.

O percurso histórico dos enfoques de pensamento racional, assim como aqueles onde prevalecem olhares e práticas de disciplinamento das crianças e de reprodução ideológica imitativa, cheios de certezas e imperativos categóricos, incide na adequação de perspectivas pedagógicas verticais e autoritárias carentes de mediação e diálogo.

E que é o diálogo? É uma relação horizontal de A com B. Nasce de uma matriz crítica e gera criticidade (Jaspers). Nutre-se do amor, da humildade, da esperança, da fé, da confiança. Por isso, só o diálogo comunica. É quando os dois polos do diálogo se ligam assim, com amor, com esperança, com fé no outro, se fazem críticos na busca de algo. Instala-se, então, uma relação de simpatia entre ambos. Só aí há comunicação. (Freire, 1986 p. 107).

Assim, o amor, a humildade, a esperança, a fé no ser humano e a confiança são fundamentos do diálogo e comunicação que vão compor a práxis revolucionaria de um novo conhecimento freiriano. A confiança e autonomia também são esferas a desenvolver. Portanto, o sentido de articulação intersubjetiva própria do diálogo atrela ainda mais a produção e construção do significado coletivo com perspectiva histórica e comunicativa:

O diálogo com as massas não é concessão, nem presente, nem muito menos uma tática a ser usada, como a sloganização o é, para dominar. O diálogo, como encontro dos homens para a "pronúncia" do mundo, é uma condição fundamental para a sua humanização. (Freire, 1986, p. 160).

Acho que é possível comunicar o transcendente, gerar apropriação de espaços de saber dialéticos e multiculturais, poder simbólico dos sentimentos e despertar aquela consciência criativa e transformadora própria da condição humana. Esta é uma aposta interdisciplinar de enunciação crítica sobre o uso social e cultural dos meios de comunicação, destinados a transformar cenários de imobilidade, passividade e domesticação. Uma comunicação que permite a problematização e expressão dos integrantes da sociedade em situação ativa de intersubjetividade.

Finalmente, não há o diálogo verdadeiro se não há nos seus sujeitos um pensar verdadeiro. Pensar crítico. Pensar que, não aceitando a dicotomia mundo-homens, reconhece entre eles uma inquebrantável solidariedade. (Freire, 1986, p. 97).

Ditas possibilidades dos seres humanos fornecem coerência, fortaleza, compromisso, convicção e curiosidade epistemológica, as quais ficam como formas alternativas de imaginar outros mundos possíveis. Fica claro, então, a necessidade de ressignificar o conceito de comunicação a partir da obra de uma das experiências educativas críticas mais importantes na história da América Latina.

Quer dizer, já não foi possível existir sem assumir o direito e o dever de optar, de decidir, de lutar, de fazer política. E tudo isso nos traz de novo a imperiosidade da prática formadora, de natureza eminentemente ética. E tudo isso nos traz de novo à radicalidade da esperança. Sei que as coisas podem até piorar, mas sei também que é possível intervir para melhorá-las. (Freire, 2009, p. 52).

Referências

  1. Berger, P. L., e Luckmann, T. (2012). Modernidade, pluralismo e crise de sentido: a orientação do homem moderno. (3. ed.). Petrópolis: Vozes.
  2. Foucault, M. (1991). El sujeto y el poder. Bogotá: Carpe Diem.
  3. Freire, P. (1975). Extensão ou comunicação. (2° ed.). Rio de Janeiro: Paz e Terra.
  4. Freire, P. (1978). Educação como prática da liberdade. (8° ed.). Rio de Janeiro: Paz e Terra .
  5. Freire, P. (1986). Pedagogia do oprimido. (16. ed.). Rio de Janeiro: Paz e Terra .
  6. Freire, P. (2001). Educação e mudança. (24. ed.). São Paulo: Paz e Terra.
  7. Freire, P. (2009). Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. (40. reimp.). São Paulo: Paz e Terra .
  8. Manfredi, S. M. A. (1985). Educação popular no Brasil: uma releitura a partir de Antonio Gramsci. Em Brandão, C. R. (Org.). A questão política da educação popular. São Paulo: Brasiliense.